Pesquisar este blog

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Revelações



Eram 10 e meia da manhã, a areia da praia reluzia sob o sol tão forte e brilhante que disparava raios ao invadir a cristalina água do mar. Podia-se sentir a brisa em seus cabelos e o suave, porém, marcante perfume da maresia. O cenário era lindo, Áurea pensava, mas o atraso incomum do seu namorado a perturbava, Henrique era um rapaz moreno, alto, de personalidade forte, seriedade e extrema pontualidade.
Áurea buscava na memória os detalhes do primeiro beijo, que acontecera no final de uma festa da empresa em que ela trabalhava. Fora em um salão escuro com flashs coloridos, diversos perfumes e muito barulho de vozes e música alta.
Apesar de muito articulada e comunicativa, Áurea era tímida, bonita, loura de cachos longos que iam até a cintura de seu corpo esguio e sinuoso, não era alta, possuía estatura mediana e por esse motivo abusava dos saltos altos.
Preferia vestir-se discreta e elegantemente, pois era uma moça que facilmente chamava a atenção, não somente por sua beleza, mas também por sua atitude dinâmica, simpática e amistosa.
E no meio daquela barulhenta pista de dança seus olhos se encontraram e fixaram por instantes. Ela possuía olfato apurado e visão medíocre, sentia o amadeirado do perfume de Henrique, o hálito fresco de menta e seus cabelos, que deviam brilhar muito, já que ela mesma conseguia perceber o quão bonitos, macios e brilhantes eram; ela queria tocá-los.
A iniciativa fora dele; ela relutou, afinal os seus colegas de trabalho estavam presentes e ela não conseguia vislumbrar como homem tão bonito, tão sério e interessante poderia se interessar por alguém tão normal e sorridente como ela.
Ela detestava isso, era tão simpática que muitos não acreditavam que era uma boa moça. E ele se encantara por ela, só que ali? Justo ali? Próximo ao chefe dela e de seus colegas maledicentes?
Ela protelou o quanto pôde, mas na última canção não pôde resistir: beijou-o avidamente, pela primeira vez, mas como se fosse a última, tudo girava e de repente o mundo era somente ela e ele.
Sentou naquela areia quente e pensou em banhar-se, mas seu vestido era branco, de algodão e ela ficaria nua aos olhos de qualquer um, caso se molhasse.
Resolveu esperar mais um pouco olhando para o horizonte e pensando em como estava incomodada com atraso tão estranhamente perturbador de Henrique.
Estava distraída quando sentiu uma mão fria e forte em seu ombro, olhou-o contra a luz e pelo cheiro percebeu que não era Henrique que estava ali, e sim Thales, seu amigo querido de espontaneidade genuína, sorriso largo e franco, aroma cítrico e refrescante, tinha a sua pele branca como a vela.
Sua face não estava como de costume, seus olhos infinitamente azuis escondiam alguma coisa.
- No que está pensando, Áurea?- Proferia Thales.
- Em muitas coisas, querido. Coisas que me lembram de dias inesquecivelmente únicos.
E de um aperto no coração que não afrouxa desde o comecinho da manhã.
- Aconteceu alguma coisa?
- Me diga você! Percebo que está tenso e, apesar de querer me contar algo, está me escondendo coisa muito importante.
- Eu hein, Áurea! Agora você é vidente? Hunf.
- Calma bobo! Só percebo uma nuvenzinha cinza aí em cima da sua cabeça.
- Não é nada demais. Só queria te fazer uma pergunta.
- Faça.
- O quanto você é apaixonada por Henrique?
- Não sei se é possível mensurar. Só sei dizer que o amo tão desesperadamente que a mínima possibilidade de perdê-lo por qualquer razão que seja me aflige, me rasga o coração. Não posso sequer imaginar tal coisa. - Após uma breve pausa ela pergunta – Por quê?
- Porque é importante. Você é muito importante pra mim e tudo o que você sente também é.
Ela percebeu que era verdade o que ele dizia, mas em seus olhos tinham dor, então ela o abraçou e disse: o que você tem, querido amigo? Está carente? - riu. Dou-te o colo que precisar.
Áurea – disse ele sério – O que preciso dizer-lhe é que sei o quanto Henrique te ama.
- Como sabe?
- Porque sinto o mesmo – disse ele.
Ela calou-se, e ele continuou.
-Te amo em silêncio por mais de dois anos, e preciso dizer que sempre estarei aqui, você tem opções, não está sozinha, nunca vou te deixar.
- Thales, mas você se tornou amigo de Henrique, não é?
- Sim, é verdade. E é por isso que me dói tanto, por isso esperei tanto... Esperei tanto que achei que nunca fosse contar... Mas...
- Mas, o quê? - E o medo tomou conta de todos os pensamentos de Áurea, um arrepio frio subiu-lhe a espinha e ficou trêmula da cabeça aos pés.
- Você precisa se acalmar – disse Thales.
- Não quero me acalmar coisa alguma. Conte-me a verdade.
- Vim a seu encontro para..., é tão difícil.
- Diga-me sem rodeios, Thales.
- O Henrique, é sobre o Henrique que vim falar.
- O que houve? Diga-me! Eu imploro.
- Calma Áurea. Se você não se aquietar, não será possível dizer.
- Pois bem, - respirou ela. -Conte-me o que está acontecendo – falou baixinho.
- O Henrique, ele... Sofreu um acidente vindo para cá, ele estava correndo na pista e uma curva traiçoeira fez o carro capotar.
Aquelas palavras amargas bateram forte na cabeça de Áurea e tudo começou a escurecer diante dela.
- Áurea, me escute. Estou aqui! Áurea!!!
- Sim, Thales. Estou ouvindo. Onde ele está? Machucou-se muito? O que mais tem para me dizer?
- Agora que comecei, vou te contar tudo.
Pegou as mãos dela e colocou entre as suas, e disse-lhe que o carro capotou e pegou fogo.
- Foi um acidente muito grave, mas ele foi resgatado rapidamente e está a caminho de um ótimo hospital no Rio, aqui na Região dos Lagos não tem hospital equipado o bastante para cuidar dele. Vim buscá-la, porque sei que você dispararia com o carro por essa cidade. E eu não poderia permitir isso. Vamos!
Áurea não resistiu, assentiu com a cabeça e foi levada ao carro de Thales.
O silêncio era cortante, gelado e devastador.
Ele não sabia o que fazer, sabia que o estado de saúde de Henrique era muito grave e que Áurea não estava bem.
Ela parecia ter sido abduzida para outra galáxia, nem percebera quando Thales estacionou e abriu a porta do carro.
-Vamos querida! Ela não reagia e ele a envolveu nos braços e subiu as escadas com ela no colo. Na recepção recebeu a informação de que Henrique estava na UTI.
Áurea não ouvira e murmurou: E agora, Thales? O que vou fazer? Não conseguirei...
- Me escute – disse ele. - Vou ficar sempre ao seu lado, ele está inconsciente e ficaremos aqui o tempo que for preciso.
- Eu quero vê-lo, Thales. Sinto como se o meu tempo com ele fosse escasso como a velocidade da areia na ampulheta, me leve até ele! Me leve!
- Acalme-se. Isso não é possível agora.
- Como não?
- Ele está na UTI, você terá que esperar. - E apertou forte a mão da moça que tanto amava.
Ela se perguntava por que seu querido amigo a amava, e se amava porque estava ali, sabendo que ela sofria tanto por outro.

Lembrou de como conhecera Thales, um ano depois de se apaixonar por Henrique e em um momento delicado, pois, apesar de muito apaixonados, Henrique pedira um tempo para que ele pudesse fazer uma viagem de seis meses ao exterior.
Foi em um feriado prolongado, numa cidadezinha do interior de Minas Gerais, a primeira vez que se viram estavam entre amigos, mas Áurea não pôde deixar de perceber os olhos incrivelmente azuis de Thales, e percebia-se facilmente o quanto ele gostava de ficar em companhia daquela moça loira e sorridente, que tinha um senso de humor extravagante e de malícia inofensiva.
Estavam em uma casa alugada, simples, sem mobília e com colchonetes ao chão. Na cozinha, aquele cheirinho de naftalina típico das casas de veraneio e um aparato doméstico muito modesto para o cotidiano normal de uma família.
Sete pessoas ao todo, Áurea que fora em companhia de Maria e Carolina, e Gabriel, amigo de infância de Áurea, acompanhado de amigos que ela não conhecia: Marco, Alexandre e Thales.
Gabriel tinha intimidade para falar bobagens e implicar com a mania de saltos altos de Áurea, ele repetia que ela os colocava até mesmo para ir à praia, já Thales pouco falava porém se oferecia para ajudá-la nas tarefas da cozinha e ela aceitava pelo simples prazer de sua companhia.
Naquele momento tão adverso Áurea sentiu-se mal por pensar tão detalhadamente em como conhecera Thales, recordara também que sua colega Maria se interessara por ele e por não ser correspondida voltou à cidade falando coisas bem desagradáveis sobre Áurea.
-Thales - disse ela- Você é uma pessoa muito querida, muito especial para mim, me trouxe a alegria num momento em que tudo era dor, quando juntava meus cacos e colocava um sorriso no rosto para não perder o costume. Como diz isso agora? Como gosta de mim há dois anos? Como? Não entendo.
-Querida, acho que me apaixonei no instante em que a vi. Você é muito esquisita, sabia? Não consegue ver a doçura e a sinceridade do seu sorriso, das suas palavras. Não enxerga como é linda?
-Não - disse ela rispidamente- E nem adianta porque a minha visão não é tão ruim assim.
-Acho péssima- disse ele.
-O que?
-Sua visão. É impossível acreditar que não se ache linda, interessante, atraente...
-Chega Thales. Responda a minha pergunta.
-Está bem, está certo. Você me chamou atenção por ser linda, mas o fator decisivo que me conquistou definitivamente foi o seu sorriso fácil e sincero. Sua simpatia e inteligência encantaram a todos os meus amigos, não percebia como não desgrudava de você? Oferecia-me para ajudar na cozinha e não sei cozinhar.
-Isso era engraçado, mas achei que não estivesse com vontade de tomar sol com os meninos...afinal, você é tão branquinho...
- Imagina, se você fosse passar o dia todo na cachoeira como suas amigas eu iria atrás mesmo que me tornasse vermelho como um pimentão. E quando te chamava para dançar com toda essa timidez? Nossa, estava muito claro o quanto estava louco por você, só você não percebeu o quanto. O Gabriel ria de mim o tempo todo.
- Mas nós ficamos amigos tão rápido, não foi? disse ela.E você dançava tão bem.
- Sim, foi o jeito que encontrei para ficar perto de você, conversando, dançando. Percebi que estava triste quando me contou tudo sobre o que estava passando como a ausência do Henrique.
- Foram maus bocados, os piores seis meses da minha vida até hoje.
- Sinto muito – disse ele.
- Desculpe Thales. É que até hoje eu sabia o que era ficar sem Henrique porque ele tinha pedido um tempo, era uma escolha entende? Deixar-me esperando tanto tempo sabendo que ficaria fielmente a devotá-lo, ele sabia que no alto dos seus vinte anos muitas coisas poderiam acontecer tanto com ele quanto comigo.
Aquele sofrimento todo que você assistiu foi tudo culpa minha. Meu Deus... Tentar suicídio? Loucura total... Depois vi que Henrique estava feliz e isso me ajudou a viver.
- Peraí – você falou em suicídio?
- Uma bobagem. Antes de te conhecer.
- Não importa. Vou deixar uma coisa muito clara para você, Áurea. Nunca, nunca pense que qualquer homem desse mundo mereça tal sacrifício, entendeu?
- Sim, Mas,... mas agora é devastador pensar no perigo que a vida dele corre.
- Mas ele está recebendo o melhor tratamento.
- Eu sei... eu sei...
E a médica os interrompeu e disse que o caso era realmente muito sério e se Henrique tivesse sorte levaria semanas, meses até para se recuperar do acidente.
Áurea era pura dor e Thales parecia que sentia em dobro, pois não suportava vê-la daquela maneira.
- Vamos embora daqui – ele disse.
- Não posso, vou ficar.
- A médica disse não há o que fazer aqui, temos que esperar. Então, vamos para casa, tomaremos um bom banho, descansaremos e amanhã tudo será mais leve.
- Não... Mas, o Henrique, se ele acordar... tenho que estar aqui.
- Mas ele não acordará essa semana, Áurea.
Encare os fatos. Vamos fazer o que lhe disse e amanhã te trago com objetos pessoais para que possa acompanhá-lo de perto.
- Tudo bem, então vamos.
Ele a deixou em casa e ela pensou na sucessão de fatos daquele dia, colocou-se embaixo do chuveiro ainda vestida e percebeu o quanto seu vestido era transparente, chorou mais ainda por lembrar da dor que sofrera ao ouvir o relato do acidente, ao pensar na primeira dor da perda, do abandono de Henrique, da segunda dor quando ele falava por telefone que estava com uma moça estudante de medicina nos EUA e ela nem era a primeira, já havia na lista dele uma ex-namorada antes ainda da viagem como consolo por se sentir confuso e triste pela separação. Como ele pôde? Pensava ela. Em menos de três meses a vida de Henrique estava normal.
Normal, não, ótima. Trabalho e curso no exterior, namorada nova e uma idiota compreensiva e esperançosa “ex-namorada e amiga” no Brasil.
E agora essa possibilidade de morte, e de vida, pois Thales tinha a verdadeira feição da beleza e da vida. Nunca faltara com respeito, jamais falaria algo sobre seus sentimentos, se não estivesse mesmo querendo dar-lhe segurança. Será que ele sabia de mais coisa? - pensava Áurea.
E o acidente, coisa mais bruta, capotar e pegar fogo? Henrique sentira muita dor?
Como faria para viver sem seus beijos, seus braços e abraços? Sem seu sorriso, sua sobriedade que colocava um pouco de ordem em sua vida?
Chorou por mais de uma hora, sentia o sal de suas lágrimas e a água morna que caía do chuveiro. Estava a lavar-se por dentro e por fora.
Fechou o chuveiro, despiu-se, enrolou uma toalha no corpo e deitou na cama adormecendo profundamente de tanta exaustão.
Dormia e acordava, acordava e dormia, ia do hospital pra o trabalho, do trabalho pra casa e assim ficara por seis meses até Henrique sair da UTI. Thales não deixava de vê-la um dia sequer.
No dia em que Henrique acordou, ela pôde entrar e vê-lo bem de perto. Thales a esperava do lado de fora do quarto.
Henrique sussurrava seu nome e Áurea chorou de emoção ao perceber que ele estava consciente e por meses os progressos foram surgindo e a recuperação de Henrique continua em um lento, porém constante progresso.
A presença de Thales voltara ao normal, diária sim, porém com ares de amizade. Áurea percebia o sacrifício de Thales em fingir que não a desejava, mas agora ela já sabia e pairava uma dúvida em seu coração, pois se de um lado tinha Henrique tão lindo, tão forte, tão sério e independente e igualmente dependente naquele momento, do outro lado via Thales tão presente, tão forte não fisicamente mais sim por suportar com tanta coragem a situação em que Áurea se encontrava e aquilo certamente transformara seus sentimentos por ele em algo desconhecido.
Passado mais de seis meses Áurea e Henrique já conversavam com freqüência, a alta sairia em questão de dias.
- Áurea – falou Henrique.
- Sim, meu lindo.
- Você está cuidando de você? - Disse ele.
- Por que diz isso?
- Porque é importante.
- Ai meu Deus o que quer dizer com isso?
- Me diga, por favor.
- Estou trabalhando e. .. acompanhando a sua recuperação.
- Áurea você nunca mais saiu com seus amigos?
- Vejo o Thales quase todos dos dias, já te disse que foi ele que me avisou do acidente.
Mas por que isso agora?
-Porque já são mais de oito meses que estou nesse lugar e sua vida não pode parar por minha causa.
- Mas ela não parou, estou feliz por estar perto de você.
- Não é justo!
- O que não é justo, Henrique?
- Você cuidar só de mim e não pensar em você. Eu te amo Áurea, mas tenho que te deixar livre, fiz uma série de cirurgias e ainda farei muito tempo de fisioterapia.
- E eu estarei com você.
- Não posso.
- Como assim?
- Áurea, lembra do nome Mariana?
- Não estou entendendo.
- Lembra-se da moça que conheci nos EUA?
- Sim. O que tem ela?
- Eu não quis te decepcionar, mas... a Mariana é a médica que acompanha meu tratamento.
- O que está me dizendo? Você...
- Calma. Estamos mais próximos sim, mas percebi o brilho em seus olhos quando fala no Thales.
- Não me venha com essa. Amo o Thales porque ele é um grande amigo, leal e companheiro não temos nada mais que isso.
- Eu sei. Mas, acho que seria melhor para você ficar longe de mim, viver a sua vida e não passar dias e dias junto a um inválido.
- Não diga isso jamais, Henrique.
- E eu percebi o quanto tenho afinidade com Mariana, gosto muito da companhia dela.
- Mas não a ama, pare com isso!
- Pare Áurea. Estou decidido, amo Mariana e ficarei com ela é isso que nós queremos.
- Quando esse “nós” deixou de ser eu e você?
- Não sei ao certo... Mas eu não podia mais adiar essa conversa.
E Áurea saiu do quarto em disparada, chorando desesperadamente desceu as escadas e ouviu Thales chamar pelo seu nome, mas não parou, acelerou ainda mais o passo, correu tanto que o salto de seu sapato rachou e fez com que ela tropeçasse e caísse. Thales a alcançou.
- Querida, o que houve? Esqueceu que eu te esperava para um café?
- Não sei de mais nada. É uma loucura - falava ela – Como sou idiota!
- O que não sabe? Por que está chorando? Aconteceu alguma coisa com Henrique?
- Ele... ele rompeu comigo.
- O quê?
- Lembra da moça que ele conheceu nos EUA?
- Han? O que tem isso agora?
- É a médica que cuida dele.
- Que ingrato, cretino. Não posso permitir, não quero vê-la sofrer novamente.
E com aquelas palavras, no meio do sal das lágrimas, do cheiro refrescante de Thales, da dor no estômago e no peito por mais uma perda sofrida, seu pé que latejava pela torção, se jogou nos braços do amigo. Thales não pôde ficar imóvel, reagiu impulsivamente, seu sangue fervia e a beijou com uma ferocidade absurda, desejava tanto aquela mulher e os mais diversos pensamentos lhe passavam pela cabeça. O amor, a ternura por Áurea, a ira por Henrique fazê-la sofrer e o prazer de tê-la em seus braços, até que Áurea o interrompeu.
- Desculpe, desculpe. – disse ela.
- Desculpas? Pede desculpas? Porquê?
- Por ter desejado que me abraçasse como homem, não como amigo, eu que provoquei isso. Que oportunista, me perdoe.
- Não seja tola. Você realmente me... desejou?
- Sim. Desejei você e sua proteção, seu colo, seu carinho. Mas... por favor me leve para casa.
- Isso tudo é verdade? Disse Thales
- Não acredita em mim?
- Não é que... é bom demais para ser verdade.
- Desculpe Thales. Pode me levar?
- Claro, claro.
Áurea tentou andar, mas seu pé doía tanto... e nem foi preciso dizer nada. Thales a pegou nos braços e a colocou dentro do carro e a levou para casa. Entrou, fez um chá para os dois e imobilizou o pé de Áurea, deu-lhe um remédio para dor e a embalou até que ela adormecesse. E assim foi.
Quando acordou, ele ainda estava ali e ela pediu que ele fosse embora e voltariam a se falar no dia seguinte. Ele fez como ela pedira, e seu coração apertou e no momento que ele bateu a porta se arrependeu do que havia dito.
Não queria ficar sozinha, mas suportou mais aquela dor. Percebeu como era forte e não se deixaria abater mais uma vez, decidiu que seria feliz, não importava como e com quem terminaria sua história, por ora estaria só, mas definitivamente buscaria a felicidade.

Thaís Renata de Lima

A troca


César, um pastor evangélico, poderoso e ambicioso empresário, dono de uma emissora de televisão, tinha uma grande equipe que trabalhava na TV por vinte e quatro horas, igrejas em várias partes do país e um grande público de fiéis. Seu braço direito, Marco, estava sempre fazendo pesquisas e trazendo ideias pra impressionar cada vez mais o público.
Em uma de suas buscas, o assistente descobrira, no Uruguai, uma mulher que dizia não professar nenhuma fé, e que estava sendo muito procurada por fazer milagres. Diante da descoberta, teve uma ideia, que expôs no mesmo dia em que, numa reunião com César, ouviu o ultimato:
- Faz muito tempo que não temos algo realmente chocante. Essas simulações de milagres não podem continuar por muito tempo. Não dá mais audiência como antes.
As investigações de Marco sobre a mulher ainda não tinham trazido resultado concreto, se ouvia sobre os testemunhos de milagres, mais nada. No entanto, pressionado pela fala do pastor, decidiu adiantar em que vinha trabalhando.
- Quero um relatório completo disso, Marco! - disse César.
Horas mais tarde, os dois se encontravam no estúdio gravando um "testemunho de milagre" que iria ao ar naquela noite.
- Vocês têm que ser mais convincentes! Não adianta só falar se não por expressão no seu rosto! Pense, você é a mãe de um menino que acabou de ter a vida salva pelo Senhor Jesus! - disse César, já sem paciência, para a novata.
Diante dessas dificuldades, César exasperado, diz a Marco:
- Quero que você vá até o Uruguai, vá até o inferno, se precisar, e traga essa mulher que faz milagres, aqui!
Uma semana mais tarde Marco chega ao seu destino. Sem muitas fontes procura o jornal que noticiara a história da mulher milagreira. Não foi difícil para ele convencer o jornalista a lhe dar informações sobre o paradeiro da mulher: mentiu que a filha estava morrendo de leucemia.
Teve então que viajar até o interior do país. Chegou em um vilarejo habitado por indígenas, na sua maioria. Mesmo falando um espanhol cheio de sotaque, conseguira ganhar a confiança do povo daquele lugar. Filmou vários relatos e testemunhos dos nativos. Foi hospedado por uma família que havia testemunhado o poder da mulher que fazia milagres. Ouvira, entre outras, a história de um certo senhor, conhecido por nome Antônio, que feriu o pé trabalhando na plantação. Em pouco tempo o pé começou a apodrecer. Este senhor fora um dos primeiros a recorrer à milagreira e, minutos depois da visita, só se via a cicatriz da ferida.
- Como a milagreira fez? Ela te benzeu, orou? Perguntou Marco.
- Ela me deu um papelzinho enrolado, com alguma coisa escrita. Orou, falava numa língua que não conheço, e me deu isso aqui (Antonio mostrou um patuá que estava usando no pescoço por debaixo da camisa), disse que nunca poderei tirar.
Assim que amanheceu, Sr. Antonio fez questão de levar Marco até a milagreira (assim era chamada pelos nativos e pela imprensa).
Entraram matagal adentro, avançaram por uma trilha durante cerca de quinze minutos até chegar em uma cabana precária, isolada do mundo. Impressionado, Marco fotografou a região antes de entrarem.
O senhor bateu na porta, que aparentemente estava fechada, mas se abriu revelando a imagem de uma mulher madura com ascendência indígena marcada no sangue e na face. A única fonte de luz vinha da porta aberta pelos visitantes.
- Senhora! Antônio veio em sua direção e beijou sua mão.
- Como se sente, Antônio? Perguntou a milagreira.
- Muito bem! Trouxe alguém que precisa de sua ajuda.
- Sim, eu sei, pode ir para sua casa, Antônio!
O homem se foi sem maiores perguntas. Ficou sozinha com Marco.
- Você não está doente.
Marco engoliu a seco, impressionado com a sabedoria da mulher. Percebeu que teria de ser cuidadoso.
- Eu não estou doente, senhora. Nem ninguém da minha família. Mas há muita gente doente de onde eu vim, e elas precisam de sua ajuda.
- Pode me chamar de Bel. Pediu a milagreira.
- Por que mora aqui, só e isolada, nessa cabana, nessas condições?
- Para não me contaminar com as influências materiais. Dedico-me a tornar a vida das pessoas mais longa aqui na terra, para isso tenho que estar envolta por outras forças.
- Preciso te pedir que venha comigo para meu país. Só por um tempo, se possível.
- Eu sabia que esse dia chegaria.
Então foram, Marco e Bel, para a capital. Pegaram o avião em direção a São Paulo.
César e sua equipe estavam preparando o grande público para uma surpresa. Haveria um evento, um grande show a céu aberto com a promessa de milagre coletivo, mas antes disso aproveitariam muito a presença de Bel para aumentar a credibilidade e a audiência da emissora.
Apesar do cansaço, Marco foi logo para a emissora, atendendo ao chamado de César.
- Que grande ideia Marco! Você não tem noção da legião que atraímos com essa milagreira. Aqueles vídeos que você mandou estão incrivelmente convincentes. Anunciamos que vamos apresentá-Ia no programa de hoje à noite.
- César, eu falei para ela que amanhã veríamos isso, como combinamos, lembra-se? Ela saiu do meio do mato, não está acostumada com TV e a fama. Temos que prepará-Ia!
- Vamos impressionar o público, HOJE! Já temos o ator que simulará um paraplégico e um milagre ocorrerá na frente das câmeras!
Marco conhecia César, ele teria que dar um jeito. Pegou o carro e foi até o hotel em que Bel foi hospedada, prepará-la para aquela noite.
Depois do almoço, Bel e Marco seguiam rumo à emissora, quando o celular de Marco toca.
- O ator contratado pra essa noite está doente, foi hospitalizado e não vem mais! – dizia César, do outro lado da linha.
- Tudo bem. Resolverei o problema.
Ainda de dentro do carro Marco ligou para um primo, pedindo para fazer esse favor. Ele achou graça, aceitou prontamente e disse que estava indo naquele instante para o estúdio.
Já no estúdio, César veio ao encontro de Marco e Bel, que era quase que o tempo todo traduzida por Marco. Mal chegara no Brasil e já não se sentia nada confortável, isso era visível. Foram interrompidos por alguém que veio anunciar a chegada de Pedro, o novo ator, primo de Marco. Bel ficou de longe observando quando ele entrou no salão e alguém chegou com uma cadeira de rodas e ele se sentou.
- Bel, isso foi feito de última hora. Tem muita gente esperando ver você fazer um milagre, não tivemos tempo de trazer um doente então só faça de conta que você está fazendo um milagre com ele. É um ator.
Horas depois, começavam a gravar.
- Senhoras e senhores, como eu havia prometido, aqui está um instrumento de Deus em pessoa, que vem com exclusividade pra "Deus é Salvação". Fazendo milagres em massa, salvando e curando almas e corpos. Apresentamos agora, de primeira mão, a Irmã BeI.
- Aqui está um fiel paraplégico.
Após uma longa encenação em que o pastor perguntava a Pedro quem era, de onde vinha, como adquirira a doença, de forma bastante dramática, César continuou:
- Você acredita que essa mulher aqui é um instrumento de Deus em pessoa, meu jovem?
- Claro, com toda fé no Senhor Jesus.
- Senhoras e senhores, agora vocês presenciarão o primeiro de muitos milagres realizados por Bel na “Deus é Salvação”.
Por trás das câmeras Marco fez um gesto para Bel por o papel na boca de Pedro.
Bel estava suando e respirando forte. Num gesto rápido ela coloca o papelzinho que lhe deram na boca de Pedro como se fosse o real, usado por ela nos seus verdadeiros milagres.
Pedro começou a mover vagarosamente os pés, fez como se estivesse emocionado. Apóia-se em César diante das câmeras e se levanta. Todos atrás das câmeras começam a aplaudir. Bel se retira sem dizer nada.
- Está perfeito! Disse César animado e satisfeito com o resultado."É isso mesmo, isso vai ao ar!".
Todos iam se retirando quando Pedro chamou Marco.
- Marco, não consigo mover minhas pernas!
Marco olhou para trás e não viu mais BeI.
- Você deve estar impressionado garoto. Encarnou de vez a personagem, isso vai passar logo! Disse César sem dar importância.
- Não sinto mais minhas pernas! Pedro começou a gritar.
Mandaram que ele fosse levado para o hospital e continuaram lá, pois havia muito trabalho. O programa foi colocado no ar e fez muito sucesso, recordes de audiência.
Nessa noite Marco não conseguiu dormir, sentia algo ruim. Se arrependera de ter trazido BeI. Afinal não se sabia muito sobre ela.
No dia seguinte teria dois cultos, exibidos ao vivo com a presença de BeI. Um deles foi logo às 11:00 da manhã. O local estava lotado de fiéis. Havia até uma banda que compôs músicas e letras especiais pela presença de Bel. Colocaram-na no centro do palco, logo ao lado Marco que seria o tradutor, César o pastor e os funcionários que filmavam. Havia muito barulho, crianças pequenas começavam a chorar, César, nervoso, abafava os choros pedindo que a banda tocasse.
Prolongou-se a reunião por mais uma hora e meia e, ao final, algumas pessoas escolhidas ficaram, para tocar em Bel, tudo estava sendo filmado!
Terminado o show, Marco procurou César preocupado.
- Você acha que é normal o que aconteceu com meu primo? Liguei no hospital e disseram que Pedro ainda não sente as pernas, nos exames não consta nada!
- Já disse que isso é psicológico. Você quer que eu faça o quê? Digo a essa imensidão de gente que Bel é o diabo e que eu me enganei?
- Só sei que não estou gostando nada disso, César.
César mandou avisar que para o culto da noite não haveria crianças, elas ficariam numa sala reservada para não ter o mesmo imprevisto que de manhã.
- Mandei fabricarem quinhentos mil patuás, tem só um papelzinho lá dentro, leve para os aposentos de Bel e pede para ela benzer, ou sei lá, fazer o quê. Vamos vender isso hoje! Foram as palavras do pastor.
Marco foi para a sala reservada a Bel. Conforme se aproximava sentia que sua pressão subia, começou a ter náuseas, a transpirar.
- Bel? Chamou-a, não obteve resposta. Resolveu abrir a porta do quarto que estava encostada.
Ao olhar para dentro, viu que o quarto se encontrava envolto por uma penumbra. Marco viu Bel ajoelhada, diante de um ser encapuzado, que lhe passava uma energia ruim.
Nesse momento faz-se um barulho no corredor, Marco leva um susto, e grita. Bel acendeu a luz, levantou do sofá no qual estava deitada.
- Desculpe, não sabia que estava dormindo, disse Marco explicando-se. César mandou umas caixas repletas de patuás para você abençoar, que serão distribuídas no culto esta noite.
- Para serem vendidas, você quer dizer?
Marco deixou as caixas no local e se retirou.
Pouco tempo depois Bel foi atrás de Marco dizendo que estava pronto, cada patuá era como se tivesse sido feito por ela mesma. Ele preferiu ignorar o que Bel havia feito ou deixado de fazer. Simplesmente agradeceu e foi procurar César pra mostrar o trabalho feito.
- Perfeito! Chamem um pessoal que irá se infiltrar no meio dos fiéis, vendendo já uma parte dos patuás. Disse César.
Faltava uma hora para o culto começar. As câmeras e os equipamentos de filmagem estavam quase prontos e aproximadamente duzentos e cinquenta pessoas (capacidade máxima no templo de gravação) estavam em seus lugares. Havia ainda muita gente do lado de fora insistindo para entrar. Agora faltavam quinze minutos.
A música começou dentro do templo, Marco adentrou acompanhando Bel e os fiéis começaram a aplaudir e a chamar por ela. César já estava em seu posto no centro do palco. Anunciou que logo após o final do culto os patuás seriam ofertados no meio do público. A cerimônia foi mais tranquila, não variou muito o texto em relação ao culto da manhã.
Uma hora e vinte depois, faltando dez minutos para terminar, César ainda dava o sermão quando Marco, sentado num canto ao lado de Bel, notou um pequeno tumulto no meio da multidão. Ele só olhou para Bel que se levantou e foi à frente do palco, interrompendo César.
Ela esticou o braço em direção ao tumulto e começou a falar em espanhol. Marco, ao receber um sinal de César, começou a traduzir simultaneamente.
- Hoje está entre nós uma senhora de setenta anos, seu nome é Lurdes, com um problema crônico de hipertensão, foi trazida carregada pelos filhos. Tragam-na aqui!
Seguranças da emissora foram até lá e a trouxeram logo. Bel segurava um papelzinho que costumava dar aos doentes que a procuravam e um patuá. A túnica que ela vestia não tinha bolsos e Marco e César não sabia de onde ela havia tirado aquilo. Quando a mulher chegara até Bel no palco, ela começou a orar num idioma que ninguém mais sabia, depois a fez tomar a pílula e colocou o patuá no pescoço, pedindo para nunca removê-lo.
Todos ficaram boquiabertos, ninguém havia planejado aquilo. Enquanto isso milhares de patuás eram vendidos ao público, dentro e fora do templo.
- Foi incrível, Marco! Você não planejou isso, foi? Pergunta César.
- Não! Se eu não te conhecesse diria que você havia planejado!
Faltavam cinco dias para o grande show de milagres que seria realizado antes da partida de Bel. Ela havia dito que não queria mais aparecer na mídia antes dessa última apresentação e, nesses dias, milhares de outros patuás foram feitos, benzidos e vendidos. Os milagres de Bel foram notícia em várias redes de TV no país e no estrangeiro.
Marco não se conformava com o que ocorrera com seu primo. Estava levando a culpa por tê-Io convidado a atuar naquele programa e pela consequência. Temia Bel, sabia que ela não representava boa coisa e só queria que aquilo tudo terminasse. Então foi até os aposentos da milagreira.
- Bel, o que você fez com meu primo que não pode mais andar?
- Logo ele voltará a andar!
Marco sentiu um ar sarcástico em Bel, então se retirou sem meias palavras. No outro dia soube que logo de manhã seu primo acordou sentindo as pernas, como se tudo aquilo que passara fora somente um pesadelo. Ainda assim preferiu não agradecer a Bel, e ter o mínimo de contato possível com ela.
Chegava o dia do grande show. Alugaram um estádio e montaram uma tenda do tamanho do campo para abrigar os milhares de pessoas que marcariam presença. A previsão do tempo havia anunciado temperaturas altas, mínima de trinta e dois graus para aquele dia.
Enfim o domingo tão esperado, tudo seria transmitido ao vivo. Havia três bandas, mais quatro pastores que revezariam com César, cinquenta seguranças, e dezenas de obreiros trabalhariam nesse dia. Contavam vinte mil pessoas, todos usavam um patuá de Bel.
Marco recebe um telefonema de sua mãe dizendo que Pedro havia sofrido um ataque cardíaco, morte repentina.
Passadas algumas horas o povo estava eufórico, fazia muito calor e pediam a presença de Bel. César deu permissão. As bandas começaram a tocar e, minutos depois, a milagreira entrou. A platéia estremeceu. Muita gente doente havia ido até lá com a esperança de ser curado. Bel foi levada até a frente do palco. Nesse instante todos os pastores e obreiros estavam ali presentes.
O clima dentro da tenda começou a ficar abafado. Bel estendeu os braços em direção aos fiéis e começou a falar simultaneamente o nome de pessoas e a doença que tinham. Marco estava do lado para traduzir, mas começou a passar mal, sentiu o mesmo que quando teve aquela visão de Bel e o Lúcifer no quarto. Sentiu um enjôo muito forte e se retirou indo para fora da tenda tomar ar fresco.
Bel não parava de falar nomes e doenças. Enquanto isso na platéia um surdo começava a ouvir, um cego a ver; os fiéis gritavam a cada palavra que Bel dizia.
O calor se tornava cada vez mais forte ali dentro. Bem ao fundo, a entrada da tenda havia sido fechada para conter a multidão. Uma mãe tentava desesperadamente entrar com seu filho de sete anos na cadeira de rodas. Comovido, um segurança arrisca abrir caminho para eles. A mulher coloca o patuá no pescoço do menino e consegue entrar, mas o espaço não é suficiente para a cadeira de rodas. Alguém empurra a mulher, já dentro da tenda, e ela se separa do filho.
De repente inicia-se um incêndio, toda armação de plástico cai em chamas sobre a multidão que se encontrava ali. O calor era tão intenso que ninguém conseguia se aproximar, todos corriam para longe. Um homem pegou o menino no colo e correu também.
Depois de dez minutos chegou o corpo de bombeiros, já era tarde. Durante semanas essa catástrofe foi notícia no mundo.
O menino no colo do homem dizia sentir as pernas, estava curado, conseguia dar seus primeiros passos. Um grupo de religiosos contatou esse menino, uma das poucas vítimas que sobrevivera à tragédia e ainda afirmava ter sido curado pela milagreira, embora tivesse perdido a mãe no show de milagres.
Disseram a ele para tirar o patuá e entregar a eles, pois estavam em oração e se ele tivesse que voltar a não andar mais, que isso caísse em um dos religiosos.
A família do menino aceitou, assim tiraram o patuá e o abriram. Dentro havia o famoso papelzinho com a escritura:
“SATAN, EU TROCO MINHA ALMA PELA SAÚDE AQUI NA TERRA

Almerides Magalhães

domingo, 11 de abril de 2010

Fênix




Ana viveu nas ruas a vida inteira. Aprendeu a traficar, a abrigar-se da chuva em lugares sujos e sombrios, a tapear a fome com cola e a fugir sorrateiramente da polícia. Lembrava-se vagamente de quando era criança, não conhecia o pai e sabia que a mãe fora prostituta e que, das relações que tivera, nasceram os filhos. Todos os irmãos tornaram-se traficantes. Vira um irmão atear fogo no próprio corpo e uma irmã ser assassinada pelo tráfico, dos outros não sabia nada. Não gostava de lembrar da infância, pois sabia que estava seguindo o mesmo destino de sua mãe, mas não sentia força para mudar isso e nem via expectativa de melhora, o jeito era aceitar.
Faísca, seu companheiro de corres, não tinha uma história diferente da dela, por isso eram cúmplices de tudo. Furtavam, cheiravam e até participavam de orgias juntos. Não havia limites, nem compromisso com nada, havia apenas a liberdade e a parceria de um com o outro.
Era sexta-feira e já estava na hora de ir para a biqueira. O Boca havia depositado toda a confiança neles. Era muita responsabilidade ser gerente da biqueira e Ana gostava, preferia essa vida. Antes fazia programas e muitas vezes tinha que ficar muito “louca” para poder sair com os caras. Agora não, só precisava ser ligeira e isso sabia fazer muito bem.
- E aê, mina, cadê a mercadoria? Os boys tão loco quereno as pedras.
- Fica sussa, Faísca. Eles trouxe bagulho de primeira. Pode pá que os boys vão recebê as pedras inda hoje.
- Fechô.
Nada saía errado. Os boys subiam o morro para comprar vários tipos de drogas e tudo ocorria tranquilamente. Durante o dia a favela era um lugar tranquilo, mas à noite, enquanto, os moradores dormiam, os becos fervilhavam de pessoas comprando e vendendo mercadorias.
Ana gostava de passar à noite trabalhando na favela e não tinha raízes, pertencia ao mundo. Não se prendia a nada, nem a ninguém. Era moça, tinha 16 anos e já era mãe. Fora mãe aos 12 anos, não tinha vínculo materno e nem ao menos sabia onde estavam os filhos. Um de seus companheiros, o Fera, de vez em quando, ainda dormia com ela, mas não tinha amor. Era apenas atração física.
Era mais um dia de trabalho e a jovem fora para o seu posto. Quando chegou, percebeu que havia algo errado. Faísca veio em sua direção e estava com a expressão de desespero no rosto.
- Mina, miô. Os polícia pegô o Boca e agora não há lei na quebrada. Vambora.
- Tá loco. E a irmandade? Nóis vai dexá os parceros agora? Se nóis fugi, eles vai dizê que nóis é traíra. Qué morrê?
- Não, mas se os polícia pegá nóis, nóis vai preso. Eu num quero sê preso de novo, é mó zica.
Ana fez menção de que ia rebater, mas achou melhor não. Afinal, sabia como as coisas funcionavam e não queria correr riscos. Concordou em fugir, mas sabiam que não seria fácil, pois a favela estava cercada e as chances de serem pegos era grande. Havia muita correria e troca de tiros. Naquele momento venceria quem tivesse mais força e a morte parecia iminente. Entravam e saíam de becos sem encontrar saída. A favela parecia um labirinto e o medo começava a tomar conta.
Faísca se lembrou que o barraco do Bichero estava vazio e seria um bom esconderijo.
- Ana, o barraco do Bichero tá vazio mó cara. Como eu não pensei nisso antes? Vamo pra lá agora.
- Ta loco! O barraco fica próximo do QG. Os polícia ta tudo lá. Nóis morre se voltá.
- A caminhada é a seguinte mina. Nóis póde voltá pr’outro caminho, beleza.
- Num sei. Tô com medo e se miá?
- Pode pá que é nóis. Os polícia não vai vê. Fica sussa.
Começaram a andar, mas Ana sentia o coração apertar, temia por si e pelo amigo. Faísca era seu melhor amigo, considerava-o um irmão.
Chegaram no barraco e por sorte ele não estava trancado. Faísca abriu a porta devagarinho e mal teve tempo de se mover quando sentiu uma dor imensa e começou a ver tudo girar a sua frente. Ana que estava atrás dele só teve tempo de segurar o amigo em seus braços. Lágrimas sentidas corriam de seus olhos. Via escorrer o sangue do peito do amigo que estava baleado e gemia de dor.
- Força, parcero! Força!
Faísca não respondia nada, não havia mais gemidos, apenas um corpo gelado nas mãos da amiga. A cena foi tão forte que Ana desmaiou.
Passaram-se dois anos e Ana ainda sentia muito quando lembrava daquela noite, a morte do amigo a marcara profundamente e após o choque decidiu mudar de vida. Estava casada, tinha dois filhos e um marido que amava muito. Nem de longe lembrava aquela adolescente do passado. Freqüentava a igreja, participava das atividades da comunidade e até possuía um projeto que ajudava adolescentes em situação de rua.

Ikerly

segunda-feira, 29 de março de 2010




FUTILIDADES...SOMENTE FUTILIDADES....



Priscila Rezende



Vivemos em uma época na qual se inventa e se reinventa de tudo! Quem diria que um dia teríamos massageadores térmicos, hein? E em casa, no conforto do lar!Churrasqueira elétrica, celular que toca música, que tira foto e ainda dá pra assistir tv! Não.Tampouco.

Nasci e cresci em uma geração em que sonhei ter uma boneca e não um laptop de uma gata quem nem boca tem; aquela, a Hello Kitty. Pior de tudo, temos tanta coisa que foi inventada para ser consumida sem saber ao menos o porquê!

Num dia desses, minha irmã chegou com um olhar iluminado de uma felicidade infantilmente contagiante, colocou as mãos nas costas e, ainda com aquele ar irritantemente infantil, me perguntou:

- Adivinha o que eu trouxe pra você? ...Eis o presente: TCHARAMMMM!
Uma super capinha de adoçante dietético!...Mas pra quê vou querer um troço desses?
Por favor, paciente leitor, pode alguém, conseguindo ler até esse parágrafo, me explicar para que serve uma capa para adoçante dietético? Era só o que me faltava!

Ao meu leigo e insignificante ponto de vista, a capinha do botijão seria o limite. Numa época onde mulheres saem pra trabalhar, sem ao menos ter tempo de cuidar da alimentação, da casa ou dos próprios filhos, vão ter que dispor de um tempo para trocar roupinhas para adoçantes dietéticos.

Imaginem a cena:
Você faz a lista de compras, coloca o básico e fundamental como arroz, feijão, açúcar etc. Mas na volta do supermercado o seu marido te olha subitamente com cara de vítima de uma catástrofe e diz:- Não me diga que você esqueceu a roupinha do adoçante!

Pronto.Começam a investir horrores em terapia de casal.
E não pára por aí. O nome pra esse troço é “protetor de digital para adoçante dietético”.

...”Meritíssimo, as provas contra o réu são insuficientes devido ao” protetor de digital dietético existente na cena do crime...”

O negócio é o seguinte, como não temos mais o que inventar, iremos agora fazer protetores para as coisas inventadas.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Força na peruca




Sábado, quando eu voltava do trabalho. Observei que a maioria das mulheres tinge o cabelo de loiro e me lembrei de que a irmã de uma amiga na tentativa de ser loira conseguiu deixar o cabelo laranja ou como diria minha amiga cor de água de salsicha.



A irmã da minha amiga faz o estilo gostosona e o cabelo loiro a deixaria no estilo “loira fatal”, porém ela acabou parecida com o espantalho do Mágico de Oz.



Aquela cena me levou a pensar sobre os padrões de beleza que nos foram impostos: Mulheres loiras são bonitas e sensuais como Marilyn Monroe que inspirou até as apresentadoras infantis. Mulheres inteligentes são morenas. Exemplo: as jornalistas globais. E quando o assunto são curvas e samba no pé logo vem a imagem de uma mulata ou negra no carnaval.



Caro leitor, quero deixar claro que não tenho nada contra ninguém. Apenas defendo a idéia de que beleza, sensualidade, inteligência e samba no pé não têm nada a ver com estereótipos.



Mulher bonita é aquela que se valoriza. Nada de superficialidade! O importante é ter personalidade. Para isso, basta você se sentir bem consigo mesma.



Um dos pontos fortes de uma mulher são os cabelos. Eles são o reflexo do nosso interior. Se estamos bem, eles ficam lindos e ganham elogios desde os mais tímidos até os mais ousados. Se ficamos tristes ou estressadas, parecem buchas e tornam-se opacos e sem vida. Daí viram alvo de chacotas.



A irmã da minha amiga depois de ficar insatisfeita com o resultado acabou tingindo o cabelo de novo. Segundo ela, não queria ser zoada na escola. Voltou a ser morena.




Ikerly

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

O poema do poeta do ônibus




O poeta do ônibus


Saí de manhã para trabalhar um dia desses e recebi uma poesia, achei incrível e digna de nota. Era uma manhã conturbada, quase sempre o ônibus está lotado e não há lugar para sentar, mas com isso eu já me acostumei, o que alivia um pouco a situação são pessoas gentis que se dispõem a segurar nossas coisas durante o percurso. Quase sempre encontro um senhor que me faz essa gentileza e, como esse ato se tornou diário, ele começou a conversar comigo, e em umas das conversas me confessou que era poeta e se dispôs a fazer uma poesia para mim, caso eu quisesse. Eu disse que ele poderia fazer com certeza e ele fez mesmo.


Alguns dias depois ele me entregou a tal poesia que quando terminei de ler, depois de rir muito, pensei na possibilidade de refletir “sociolinguisticamente” sobre aquele fato, mas não tinha como, acredito que nem mesmo os sociolinguistas defendem aquele tipo de ortografia, eu nunca vi tantas "inadequações" à variante culta do português na minha vida, vocês precisam ler... Para vocês terem uma ideia do conteúdo da poesia citarei alguns trechos fantásticos: “Poezias para uma pesoua”, “me perdoi çir eu estou erado”, “ o jardim do ceu quintal”, “ não cepreocupe”, “medescurpe” e o melhor, quando termina uma parte da folha ele escreve “por-favor vire o papel” , ele pensou que eu fosse fazer o quê? Esses são só alguns problemas, pois a carta inteira ele escreve desta forma.


A primeira impressão que tive ao terminar de ler aquela “poesia” foi de algo muito engraçado, eu morri de dar risada, aquilo era bizarro e penso que esta é a primeira impressão da maioria das pessoas que leem, mas esta uma questão muito séria se formos analisar em que nível de educação nós estamos, isso é uma prova do analfabetismo que há no nosso país, pois com certeza ele não é o único a escrever dessa maneira, isso é muito triste. Apesar de no final da carta ele pedir desculpas por ter pouco conhecimento - ele chama isso de “leitura fraca” - eu fico imaginando o que levou essa pessoa a acreditar que é poeta e qual será seu conceito sobre poesia, eu confesso que tem alguns traços poéticos na forma de se expressar quando ele fala de rosas, de jardins etc, mas sinceramente ainda não consigo ver como poesia, talvez preciso estudá-la mais profundamente.


Eu fico pensando em até quando ele vai escrever essas coisas acreditando que é poesia, porque sinceramente eu não tenho coragem de dizer para ele o que realmente penso, eu disse que gostei muito, porém sinto muito pela minha atitude mentirosa movida pelo sentimento de pena.
Carla Lucatto